Marcelo Lopes chega ao
Instituto Arttere como quem não pede licença — abre passagem. Sua escrita, marcada por um pulso direto e uma imagética cortante, faz do
poema um instrumento de atenção: aquilo que o cotidiano costuma empurrar para as margens (o cansaço, a urgência, a despedida, o desejo, a saudade) volta ao centro, sem ornamento e sem anestesia. Há, em seus versos, uma ética da franqueza: o texto não “explica” o mundo — ele o expõe.
Nascido em Pelotas (RS), no outono de 1973,
Marcelo vive há mais de duas décadas em São Paulo, cidade que atravessa sua percepção como ritmo e fricção. Escreve desde a adolescência e, a partir de 2018, passou a compartilhar poemas no Instagram, consolidando uma interlocução ampla e cotidiana com leitores. Publicou de forma independente dois livros —
O voo dos dias no abismo do tempo (2023) e Alimente o desejo e mate-o, ele não vai te poupar (2025) — reafirmando uma poética visceral, atenta às
“coisas do cotidiano, as reais e as imaginárias”, precisamente aquelas que, na correria, passam despercebidas.
A exposição online do
Instituto Arttere, intitulada
“O voo dos dias no abismo do tempo”, toma emprestado o nome de seu livro homônimo e, mais do que isso, assume sua atmosfera como chave curatorial: todas as
poesias apresentadas nesta mostra pertencem a esse volume. Não se trata, portanto, de uma antologia dispersa, mas de um corpo coeso — um percurso — onde cada
poema funciona como um recorte de tempo e um registro de temperatura interna.
Nesta seleção, a obra de
Marcelo evidencia um repertório de estados —
“Urgência”, “Rotina”, “Equilíbrio”, “Sufoco”, “Círculo Vicioso”, “Infância”, “Luna” — como se cada texto fosse um ponto de pressão em que a vida, de repente, se revela.
Marcelo
escreve por condensação: poucas linhas bastam para acender uma cena mental e, ao mesmo tempo, uma sensação física. Em trabalhos como
"Corte exposto", a saudade comparece como lâmina: não metáfora decorativa, mas matéria afiada, de contato imediato.
Ao
inaugurar a Sessão de poesia no
Instituto Arttere, esta mostra propõe mais do que a apresentação de um autor: inaugura um território. Um espaço de escuta e presença, onde
a palavra — frequentemente tratada como legenda do mundo — reassume sua autonomia e seu risco. A
poesia, aqui, não é acompanhamento; é acontecimento. E, ao acontecer, reeduca o olhar: devolve densidade ao instante e transforma experiência em linguagem compartilhável.
Artista:
Marcelo Lopes.
Texto por:
Ana Olivia Cury Liran.
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Galeria Virtual Arttere
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