Alessandra Vetorazzi,Ana Maria Farina,Anna Paes,Bell Cury,Claudia Araujo,Cristiane Arruda,Erika Hinz,Fábio Carvalho,Fernanda Mascarenhas,Fernanda Sternieri,Laerte Késsimos,Luciana Faria,LudIArt.digital,Manolo Quadros,Monica Tinoco,Renata Dias Maciel,Robert Haeberlin,Rosa Grizzo,Susantos,Thais Ribeiro
Comece pelo fio. Antes de ser tecido, antes de ser roupa, antes de ser bandeira ou mortalha, o fio é
apenas uma linha — matéria sem mensagem, comprimento sem sentido. É assim que esta exposição
começa: com
Retrato, de Thais Ribeiro, uma moldura dourada que guarda somente fios de urdidura soltos.
Um retrato sem rosto. A promessa de uma imagem que ainda não aconteceu.
O que vem depois é a história inteira da nossa espécie, contada em cinco passos.
Primeiro alguém pega o fio — e quem ensina a pegar é sempre outra pessoa. Quase sempre uma mulher,
quase sempre dentro de casa, quase sempre sem receber por isso. Laerte Késsimos expõe lado a lado
Bordado da mãe e Camisa do pai: a técnica que chega pelo colo e a roupa que fica quando o corpo sai. Renata
Dias Maciel borda o mapa do Brasil encimado por cocares —
Kayapó, Yanomami — e lembra que a grade
têxtil neste território é anterior a qualquer grade europeia. Cristiane Arruda dá a uma obra o nome de uma
mulher,
Etel, e com isso nomeia a própria cadeia de transmissão. Fernanda Mascarenhas dobra e tinge
sedas até virarem
Hagoromo, o manto de plumas do teatro nô. Herdar é a primeira operação: receber um
gesto que não se inventou.
Depois o pano começa a escrever; é onde a língua entrega o segredo que
sempre guardou:
texto e têxtil são a mesma palavra. As duas descendem do latim
texere, tecer. A frase se
tece, o pensamento tem fio, a história tem trama, quem conspira urde. E não é figura de linguagem — é
descrição técnica. Um tecido é o primeiro sistema binário que a humanidade construiu: o fio passa por cima
ou por baixo, um ou zero, e dessa alternância mínima nasce toda figura possível. Foi por isso que, em 1804,
o tear de Jacquard pôde passar a ser programado por cartões perfurados; e foi por isso que Ada Lovelace
escreveu, quatro décadas depois, que a Máquina Analítica “
tece padrões algébricos assim como o tear de
Jacquard tece flores e folhas
”. O computador não se parece com um tear. Ele descende de um.
Nesta exposição a afirmação não precisa de nenhuma tela para se sustentar — ela está nos próprios panos.
Fernanda Sternieri tece
O Alfabeto. Alessandra Vetorazzi borda
Gero como quem preenche um formulário de
signos. Anna Paes chama sua série de
Vestígios Arqueológicos e produz superfícies que se leem como
tabuletas cifradas — inscrição em duas delas, sedimento na terceira. Thais Ribeiro costura um
Fluxograma de
mim
. Laerte Késsimos cruza dois eixos num pano e escreve nas pontas
o tempo, o amor, a distância — um
diagrama bordado, na linhagem de José Leonilson, que fez da linha um diário. Aqui o tecido não ilustra a
escrita. Ele é a escrita, no estado anterior ao alfabeto.
Então o fio encontra o corpo, e fura. Ana Maria Farina nomeia sua série
Histérica — de
hystera, útero em
grego, raiz do diagnóstico com que a medicina calou mulheres por séculos — e chama a nona de
O Riso da
Medusa
, direto de Hélène Cixous. Usar a agulha que foi imposta às mulheres para desmontar a patologia
que lhes foi imposta é a inversão mais exata que esta exposição contém. Bell Cury borda sobre camisetas
usadas —
Peles Bordadas —, e o suporte já tem corpo dentro. Rosa Grizzo deixa cair, de dentro de um
bastidor, um único fio longo e vermelho. Erika Hinz emoldura um coração feito de fio escuro. Costurar,
aqui, é ferir e cicatrizar ao mesmo tempo — como toda sutura.
E por fim o fio acusa. Fábio Carvalho borda
luvas pretas com um vermelho que escorre em miçangas e as
chama de
Equipamento de Privilégio Individual — Sangue nas Mãos; faz mordaças douradas e bordadas e
chama-as de
Açaimo. A sigla da proteção individual vira privilégio individual, e o que protegia vira
mordaça. Thais Ribeiro deixa arrastar pelo chão
O Manto dos Sonhos Adiados, um manto que ninguém veste.
Farina borda a frase que abre
Fahrenheit 451: it was a pleasure to burn. O pano que aprendeu a escrever
aprende também a denunciar.
Na exposição também aparece uma imagem de reparo.
Consertando a rede, de Manolo Quadros: alguém, com
paciência, refazendo o que se rompeu. Ao lado, uma
Rede de Luzes Noturnas gerada por máquina desenha a
mesma topologia — nós, ramificações, fluxo — em matéria oposta. Em português, rede é a rede de dormir
indígena, a rede do pescador e a rede digital, tudo na mesma palavra: o descanso e a captura, o cuidado e a
vigilância. Vivemos dentro de redes que não sabemos consertar, tecidas por algoritmos cuja urdidura não
vemos.
A arte têxtil voltou ao centro do sistema da arte contemporânea na última década não por nostalgia do feito
à mão, mas porque devolve visibilidade ao processo: no tecido, a estrutura é a superfície. Nada fica
escondido. Olhar de perto é ver como foi feito.
Convidamos você a percorrer TRAMA pelo avesso — de perto, um fio de cada vez, até que a figura apareça.
Artistas:
Alessandra Vetorazzi,
Ana Maria Farina,
Anna Paes,
Bell Cury,
Claudia Araujo,
Cristiane Arruda,
Erika Hinz,
Fábio Carvalho,
Fernanda Mascarenhas,
Fernanda Sternieri,
Laerte Késsimos,
Luciana Faria,
LudIArt.digital,
Manolo Quadros,
Monica Tinoco,
Renata Dias Maciel,
Robert Haeberlin,
Rosa Grizzo,
Susantos,
Thais Ribeiro
Texto e curadoria por:
Ana Olivia Cury Liran.
Clique aqui para visitar a exposição na
Galeria Virtual Arttere
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