Trama - o pano que escreve

Trama - o pano que escreve

Exposições


de 05 até 31 de outubro de 2026

Galeria Virtual Arttere

Comece pelo fio. Antes de ser tecido, antes de ser roupa, antes de ser bandeira ou mortalha, o fio é apenas uma linha — matéria sem mensagem, comprimento sem sentido. É assim que esta exposição começa: com Retrato, de Thais Ribeiro, uma moldura dourada que guarda somente fios de urdidura soltos. Um retrato sem rosto. A promessa de uma imagem que ainda não aconteceu.

O que vem depois é a história inteira da nossa espécie, contada em cinco passos.

Primeiro alguém pega o fio — e quem ensina a pegar é sempre outra pessoa. Quase sempre uma mulher, quase sempre dentro de casa, quase sempre sem receber por isso. Laerte Késsimos expõe lado a lado Bordado da mãe e Camisa do pai: a técnica que chega pelo colo e a roupa que fica quando o corpo sai. Renata Dias Maciel borda o mapa do Brasil encimado por cocares — Kayapó, Yanomami — e lembra que a grade têxtil neste território é anterior a qualquer grade europeia. Cristiane Arruda dá a uma obra o nome de uma mulher, Etel, e com isso nomeia a própria cadeia de transmissão. Fernanda Mascarenhas dobra e tinge sedas até virarem Hagoromo, o manto de plumas do teatro nô. Herdar é a primeira operação: receber um gesto que não se inventou.

Depois o pano começa a escrever; é onde a língua entrega o segredo que sempre guardou: texto e têxtil são a mesma palavra. As duas descendem do latim texere, tecer. A frase se tece, o pensamento tem fio, a história tem trama, quem conspira urde. E não é figura de linguagem — é descrição técnica. Um tecido é o primeiro sistema binário que a humanidade construiu: o fio passa por cima ou por baixo, um ou zero, e dessa alternância mínima nasce toda figura possível. Foi por isso que, em 1804, o tear de Jacquard pôde passar a ser programado por cartões perfurados; e foi por isso que Ada Lovelace escreveu, quatro décadas depois, que a Máquina Analítica “ tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas ”. O computador não se parece com um tear. Ele descende de um.

Nesta exposição a afirmação não precisa de nenhuma tela para se sustentar — ela está nos próprios panos. Fernanda Sternieri tece O Alfabeto. Alessandra Vetorazzi borda Gero como quem preenche um formulário de signos. Anna Paes chama sua série de Vestígios Arqueológicos e produz superfícies que se leem como tabuletas cifradas — inscrição em duas delas, sedimento na terceira. Thais Ribeiro costura um Fluxograma de mim . Laerte Késsimos cruza dois eixos num pano e escreve nas pontas o tempo, o amor, a distância — um diagrama bordado, na linhagem de José Leonilson, que fez da linha um diário. Aqui o tecido não ilustra a escrita. Ele é a escrita, no estado anterior ao alfabeto.

Então o fio encontra o corpo, e fura. Ana Maria Farina nomeia sua série Histérica — de hystera, útero em grego, raiz do diagnóstico com que a medicina calou mulheres por séculos — e chama a nona de O Riso da Medusa , direto de Hélène Cixous. Usar a agulha que foi imposta às mulheres para desmontar a patologia que lhes foi imposta é a inversão mais exata que esta exposição contém. Bell Cury borda sobre camisetas usadas — Peles Bordadas —, e o suporte já tem corpo dentro. Rosa Grizzo deixa cair, de dentro de um bastidor, um único fio longo e vermelho. Erika Hinz emoldura um coração feito de fio escuro. Costurar, aqui, é ferir e cicatrizar ao mesmo tempo — como toda sutura.

E por fim o fio acusa. Fábio Carvalho borda luvas pretas com um vermelho que escorre em miçangas e as chama de Equipamento de Privilégio Individual — Sangue nas Mãos; faz mordaças douradas e bordadas e chama-as de Açaimo. A sigla da proteção individual vira privilégio individual, e o que protegia vira mordaça. Thais Ribeiro deixa arrastar pelo chão O Manto dos Sonhos Adiados, um manto que ninguém veste. Farina borda a frase que abre Fahrenheit 451: it was a pleasure to burn. O pano que aprendeu a escrever aprende também a denunciar.

Na exposição também aparece uma imagem de reparo. Consertando a rede, de Manolo Quadros: alguém, com paciência, refazendo o que se rompeu. Ao lado, uma Rede de Luzes Noturnas gerada por máquina desenha a mesma topologia — nós, ramificações, fluxo — em matéria oposta. Em português, rede é a rede de dormir indígena, a rede do pescador e a rede digital, tudo na mesma palavra: o descanso e a captura, o cuidado e a vigilância. Vivemos dentro de redes que não sabemos consertar, tecidas por algoritmos cuja urdidura não vemos.

A arte têxtil voltou ao centro do sistema da arte contemporânea na última década não por nostalgia do feito à mão, mas porque devolve visibilidade ao processo: no tecido, a estrutura é a superfície. Nada fica escondido. Olhar de perto é ver como foi feito. Convidamos você a percorrer TRAMA pelo avesso — de perto, um fio de cada vez, até que a figura apareça.

Artistas: Alessandra Vetorazzi, Ana Maria Farina, Anna Paes, Bell Cury, Claudia Araujo, Cristiane Arruda, Erika Hinz, Fábio Carvalho, Fernanda Mascarenhas, Fernanda Sternieri, Laerte Késsimos, Luciana Faria, LudIArt.digital, Manolo Quadros, Monica Tinoco, Renata Dias Maciel, Robert Haeberlin, Rosa Grizzo, Susantos, Thais Ribeiro

Texto e curadoria por: Ana Olivia Cury Liran.

 
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